Policy paper aponta caminhos para inovação aberta no setor público
A inovação aberta tem ganhado espaço no setor público, mas ainda existem dúvidas sobre como estruturar iniciativas, superar barreiras e garantir resultados. Com o objetivo de contribuir para esse debate com base em evidências, foi lançado o policy paper resultante da pesquisa “Gestão da Inovação Aberta no Setor Público Federal: um estudo sobre práticas e resultados”, fruto do Programa Cátedras Enap. O lançamento oficial aconteceu durante o 2º Encontro da Comunidade de Inovação Aberta da Rede InovaGov, realizado em novembro de 2025. O documento está disponível gratuitamente no repositório da Enap e representa uma contribuição estratégica para o ecossistema de inovação no setor público.
Confira a gravação do evento de lançamento
2º Encontro da Comunidade de Inovação Aberta da Rede InovaGov
O 2º Encontro da Comunidade de Inovação Aberta da Rede InovaGov foi realizado pela Enap, por meio da Diretoria de Inovação (GNova) e da Diretoria de Altos Estudos (DAE), em parceria com o Impact Hub Brasil. O evento teve como propósito ampliar a compreensão sobre os desafios e as oportunidades da inovação aberta na administração pública, reunindo gestores, pesquisadores e profissionais do setor público em um espaço de diálogo e aprendizagem.
Voltado para servidores e participantes da Comunidade de Inovação Aberta da Rede InovaGov, o encontro reforçou que a inovação aberta não depende apenas da adoção de ferramentas ou metodologias. O debate evidenciou o papel estratégico da liderança, da governança e da cultura organizacional na criação de ambientes mais colaborativos, modernos e orientados à geração de valor público.
A partir da apresentação dos resultados da pesquisa, também foram debatidos os fatores estruturantes e culturais que sustentam o sucesso de iniciativas inovadoras, além das barreiras jurídicas, operacionais e institucionais que ainda limitam sua adoção em maior escala.
Além de apresentar evidências e resultados do estudo, o encontro estimulou novas conexões e reforçou a importância de fortalecer redes de gestores comprometidos com práticas colaborativas e com a transformação da administração pública por meio da inovação aberta.
Sobre a pesquisa: o que foi analisado e como o estudo foi feito
A pesquisa “Gestão da Inovação Aberta no Setor Público Federal: um estudo sobre práticas e resultados” é de autoria de Alessandra Cassol e Márcio Luiz Marietto, ambos professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com apoio do Programa Cátedras Brasil da Enap. Trata-se de um estudo focado em iniciativas de inovação aberta implementadas por órgãos da administração pública federal brasileira entre 2021 e 2023.
Esse recorte temporal é especialmente relevante porque se insere no contexto de fortalecimento do Marco Legal da Inovação (Lei nº 13.243/2016) e da Lei das Startups (LC nº 182/2021), que ampliaram condições e instrumentos para a colaboração entre setor público e atores externos, como empresas, instituições científicas, startups e organizações do ecossistema.
Para chegar aos resultados apresentados no policy paper, o estudo combinou pesquisa documental, análise de dados secundários e entrevistas com 29 gestores públicos. A abordagem utilizada permitiu mapear fatores críticos associados à estrutura institucional das iniciativas e à dinâmica interna dos órgãos, incluindo o papel da liderança e os entraves normativos que impactam a adoção e a consolidação da inovação aberta.
Ao todo, foram mapeadas 264 iniciativas de inovação aberta conduzidas por 15 órgãos federais. A partir desse conjunto, o estudo analisou fatores organizacionais, culturais, jurídicos e técnicos que podem facilitar ou dificultar a institucionalização dessas práticas no governo federal.
Principais resultados do estudo
Uma das descobertas centrais do estudo é o crescimento expressivo do número de iniciativas no período analisado. Entre os órgãos mapeados, destacam-se a Petrobras e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tanto pelo volume quanto pela relevância das iniciativas identificadas.
O policy paper também aponta a identificação de R$ 94,7 milhões em investimentos relacionados às iniciativas analisadas, com grande concentração em projetos de Inteligência Artificial fomentados por instituições como a Enap e a Finep. Esses dados ajudam a dimensionar a escala do avanço institucional da inovação aberta no setor público federal, ao mesmo tempo em que revelam áreas de maior prioridade e investimento.
O estudo mostra com clareza o que faz com que as iniciativas de inovação aberta funcionem no setor público. A pesquisa identificou cinco pontos que aparecem com frequência nas experiências bem-sucedidas e que ajudam a garantir que essas ações continuem ao longo do tempo, ganhem força dentro das instituições e gerem resultados. Esses pontos são:
- A estruturação de políticas públicas específicas para inovação aberta;
- A criação de estruturas internas e uma cultura organizacional favorável;
- A presença de liderança estratégica e qualificada;
- O fortalecimento de competências técnicas das equipes;
- Estratégias de integração e envolvimento de stakeholders.
Esses pontos ajudam a entender por que algumas iniciativas avançam com mais consistência, enquanto outras ficam restritas a projetos isolados ou dependentes de indivíduos e circunstâncias específicas. Ao destacar esses fatores, o policy paper oferece um panorama útil para gestores públicos e organizações parceiras que desejam fortalecer programas e políticas de inovação aberta com maior efetividade.
Desafios persistentes e a necessidade de transformação sistêmica
Embora o estudo evidencie avanços importantes, ele também aponta barreiras estruturais que continuam afetando a adoção e a consolidação da inovação aberta no setor público federal. Entre elas, aparecem com frequência a burocracia, a insegurança jurídica e a baixa maturidade técnica, além de limitações institucionais e operacionais que dificultam a execução, o monitoramento e a escala das iniciativas.
Um dos pontos mais importantes trazidos pelo policy paper é que a inovação aberta não se sustenta apenas com projetos pontuais ou ações fragmentadas. Para que ela se institucionalize e ganhe continuidade, é necessário um movimento de transformação sistêmica na administração pública, com melhoria de capacidades, maior segurança normativa e fortalecimento da governança. Isso envolve desde a consolidação de estruturas internas até o amadurecimento de práticas de colaboração, contratação, avaliação de resultados e gestão de riscos.
Nesse sentido, o estudo se posiciona como um material estratégico para apoiar decisões mais qualificadas e promover uma agenda de inovação aberta orientada a resultados, aprendizado contínuo e geração de valor público.
A relevância do policy paper para o ecossistema de inovação no setor público
O documento dialoga diretamente com diferentes atores do ecossistema, como lideranças públicas, gestores, laboratórios de inovação, áreas jurídicas e de governança, pesquisadores, startups, universidades, hubs e organizações da sociedade civil que atuam em parceria com o governo. Ao reunir evidências e recomendações com base em iniciativas reais, o policy paper contribui para alinhar expectativas, identificar caminhos possíveis e fortalecer a capacidade de implementação de inovação aberta em diferentes contextos organizacionais.
Em um cenário no qual cresce a demanda por soluções mais ágeis e colaborativas, compreender o que funciona, por que funciona e o que impede o avanço em escala é essencial para orientar investimentos e estratégias. Por esses motivos, o policy paper é uma leitura recomendada para quem busca apoiar ou liderar transformações no setor público com base em evidências.